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O Escritor e a Balança

  • Foto do escritor: André Portugal
    André Portugal
  • 14 de nov. de 2018
  • 4 min de leitura


Num lugar perdido no espaço e no tempo havia um jovem escritor, autor das obras literárias mais importantes de toda a região. Possuía um dom de escrever livros mágicos que traziam vida e cura espiritual aos corações mais sensíveis. Ele não media esforços em sua dedicação, pois o resultado de seu trabalho o enchia de alegria. Filas se formavam em frente a sua humilde casa. Para dar conta da alta demanda, às vezes passava noites em claro, focado em atender a todos os necessitados da sua palavra.

Certo dia, a caminho de uma loja de tintas um pouco mais afastada, passou em frente a uma banca que vendia livros. Reconhecendo uma das capas, percebeu que era um dos seus - o preço era de se espantar. Como as páginas eram escritas de forma que ao serem lidas uma única vez, desapareciam, soube de imediato que aquele exemplar era novo em folha. Alguém a quem dedicou seu trabalho usou de má fé em benefício próprio. Decepcionado, passou a desconfiar de todos que chegavam a sua casa. Com isso, perdera tanto a capacidade de influência de suas obras quanto a energia para executá-las.

Certa vez, uma camponesa muito pobre passou em sua casa implorando por ajuda. Cansado, se negou a atendê-la: “Mulher, eu não escrevo mais livros de amor ou de amizade ou de cura alguma. Estou esgotado e não tenho nada aqui pra você. Nem se quisesse, pois perdi meu dom quando fui enganado”, disse o jovem. Passados alguns dias, recebeu a notícia de que o livro que a senhora pedira era para o seu filho doente e que este viera a falecer. Seu coração, cheio de culpa, se entristeceu ainda mais.

Não tão distante dali vivia um sábio muito famoso pela sua sabedoria, mas também por sua justiça e imprevisibilidade. Tempos atrás, todos aqueles que estivessem passando por crises pessoais costumavam ir até sua cabana, tal qual faziam com o escritor. O velho possuía um baú mágico. Todo aquele que possuísse uma verdadeira angústia poderia ser presenteado por um objeto que personificava a respostas para seus problemas. Há muito ninguém o visitava, pois morava num local de difícil acesso. Muitos se perderam ao tentar chegar e muitos que chegaram voltaram de mãos vazias.

Movido de uma última esperança, pegou seu último livro a fim de barganhar por um conselho que viesse reascender a chama e a vontade de escrever do rapaz - não era justo que os bons pagassem pelos erros dos maus. “O velho há de se compadecer com meus nobres motivos e com meu esforço. Além disso, sei que anda doente e meu livro irá ajudá-lo ”. Bem cedo, antes do nascer do sol, pegou seus pertences e partiu em direção às montanhas, onde o sábio se isolara.

Sua persistência não o traiu. Após dois dias, o jovem avistou uma cabana e logo tratou de entrar sem cerimônia. Antes mesmo que o sábio dissesse alguma coisa, ele se anunciou: “Perdoe-me, sei que há muito encerrara seus ensinamentos, mas também sei que faz isso, pois encontra-se debilitado. Trouxe em troca meu último livro que escrevi antes de perder toda a fé nas pessoas, ele ainda tem o poder de curar aqueles que leem. É tudo o que eu tenho, te entrego como pagamento”.

O sábio ofereceu um copo d’água ao seu inesperado visitante, permanecendo em silêncio como quem avaliava a proposta. Em seguida, o convidou para ir com ele até um cômodo onde havia um baú: “Abra!”, disse o Senhor, “Mas antes pense na sua inquietude”. O escritor obedeceu e, ao abrir o baú de madeira, viu que havia uma espécie de balança feita de um material muito frágil e simples. Aparentemente descompensada.

O jovem colocou o livro na balança e fechou o baú. Olhou o senhor, abriu, tornou a olhar. Não tinha nada. Repetiu o procedimento dez vezes. O sábio então interrompeu e disse: “Parece que essa balança não te dará nada por seu livro, você pode continuar tentando, deixá-la aqui ou levá-la de volta com você”. Cansado e visivelmente irritado, o visitante se lamentou: “Eu não entendo! Esse livro é tudo que eu tenho, não tenho nada mais valioso que isso, passei a vida ajudando as pessoas sem nada pedir em troca, estou frustrado por não me sentir merecedor, volto pra casa com meu livro e sem nenhum ensinamento. O senhor não tem nada a me dizer? Talvez eu tenha vindo aqui descobrir que a regra é a decepção”. O sábio ficou em silêncio.

O escritor pediu desculpas pela raiva e se retirou. Passaram-se cinco horas, o sol já desaparecia no horizonte, até que ele retornou à cabana dizendo: “É verdade que sabe de todas as coisas, estou muito grato por esse ensinamento! Em troca, peço para que fique com minha obra, agora que sei o que fazer. Estou entusiasmado para escrever mais nessa nova forma! O sábio sorriu e aceitou o presente de bom grado dizendo “leve essa balança que um dia foi minha, ela é a sua ferramenta agora”. O jovem partiu eufórico com sua nova ideia.

Daquele dia em diante, com uma balança em sua mesa, o jovem pesava sorrisos e lágrimas em troca de livros, assim escrevia suficientemente para quem realmente precisava, sem esgotar sua fonte de inspiração. A cada agradecimento sentia-se capaz de se doar cada vez mais, pois agora, escolhia seus clientes e se enchia de alegria.

Às vezes nos esforçamos muito pra entregar o que temos de mais valioso para pessoas que nada nos pediram ou para outras que sequer têm a capacidade de retribuir. Gastamos todos os nossos papéis e noites de sono forjando a ferro e fogo relacionamentos desequilibrados. Esquecemos de gerenciar nossa atenção para pessoas que mais nos devolvem amor. Amar é grátis, mas se relacionar consome energia. Certifique-se de que haja um equilíbrio entre as entregas. Ainda que em formatos diferentes, o peso daquilo que a gente dá deve ser muito bem balanceado ou mergulharemos em profunda frustração.

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