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Eros e o pássaro

  • Foto do escritor: André Portugal
    André Portugal
  • 18 de abr. de 2021
  • 7 min de leitura

Eros acordou ansioso. Limpou o rosto e fitou sua imagem no espelho durante um tempo – apesar de estar levemente atrasado, não conseguia se mover com agilidade: “o tempo de acordar às vezes é a prova de que nosso corpo tem uma certa autonomia”. Sem fome, mordeu uma fruta apenas para sentir que existia nela um autocuidado, mas conforme o tempo do mundo avançava, o tempo do corpo parou de lutar.

Cansado devido à noite mal dormida, fagulhas de adrenalina lhe lançaram um sorriso e ele exclamou: “É hoje!”. Faltavam apenas quarenta minutos para chegar a seu destino: Eros já avançava para além da cidade velha, tinha um encontro importante. “O mais importante!”, refletiu.

“Dizem que ele um dia atenderá a todos, mas, com tantas pessoas comuns no mundo, sinto-me honrado de conseguir este lugar. Preciso perguntar com responsabilidade pois conheço muitos que saíram insatisfeitos com a subjetividade da resposta do “Grande E...” – falava sozinho enquanto apertava o passo: “preciso ir direto ao ponto”.

Alhures era uma grande cidade situada no vale de uma área deserta, ao final de um corredor entre montanhas, conhecido como "Vazio de Alhures”. Esta, também uma região sagrada que sobrevive do turismo de quem vêm em busca dos ensinamentos mágicos do Grande “E”, nome dado a uma entidade Etérea masculina que residia na grande biblioteca da Capital. É direito de todo aquele que é cidadão participar da loteria, cujo prêmio era um encontro com o grande saber – e por tê-lo ganhado nosso herói estava tão afobado.

Passando entre os peregrinos com certa dificuldade, avistou finalmente seu destino: a famosa construção piramidal. O templo tinha uma aparência antiga, apesar dos aparatos tecnológicos muito avançados que prontamente identificavam os que atravessavam o portal de entrada. “É como se o passado e o futuro habitassem o mesmo lugar”.


Quem chegava não via quem saía, um caminho unidirecional banhado em tons de luz avermelhados vindos do salão principal. Monges formavam uma longa fila até chegar àquele conhecido por preencher todos os vazios do mundo. Após uma longa espera, uma voz anunciou: “Eros, seja bem-vindo! Aproxime-se da luz e traga sua demanda”



– A minha demanda é por conhecimento! Parece que estou sempre em busca de algo, mas nunca chego a lugar algum, se enfim eu souber de todas coisas, da regra primordial, conseguirei chegar lá!

– O conhecimento está na verdade – disse a voz com a prontidão de quem deve responder muitas vezes a mesma pergunta.

– E onde encontro essa verdade?

– Encontra em mim – exclamou a voz!

– Bom, estou aqui. O que mais tenho que fazer?

– Me dar algo em troca.

Eros achou aquele diálogo um tanto “barganhador” por parte do grande E, o que o incomodou um pouco, mas diante de toda a sua grandeza e todo o seu poder. Então, única coisa capaz de fazer foi engolir seu orgulho:

– O que queres então de mim? Trago algumas sementes, mas não tenho ouro.

– Quero o seu desejo.

Visivelmente contrariado, Eros franziu as sobrancelhas e fitou um monge que observava toda a conversa em busca de alguma cumplicidade, mas só encontrou um vazio apático.

– Quer que eu deseje a ti? – finalmente falou.

– Quero que deseje apenas o que não for proibido. Todo o restante entregue a mim.

– E como saberei dos bons e maus desejos?

– Está nos livros, inspiro os homens e eles os escrevem no templo.

– Com todo o respeito que tenho pelo senhor, eu já li todos os livros, há coisas ruins por lá... Há dissonâncias, há mais de uma verdade, há um pouco do homem que escreveu cada um deles. Mas não há o conhecimento que preciso.

– Não há porque você quer o todo, mas o todo não existe em você.

– Nisso concordamos, o todo não existe... Mas voltemos um pouco: por que então você quer o desejo?

– Porque é a moeda de troca.

– Não tem lógica! Parte de mim é desejo, ou metade até. Como um livro pode determinar meu desejo? Afinal, o que é você?

– A Estrada, o Entendimento e a Existência. O grande E. Ora, se estás aqui é porque sabes.

– E se você for apenas um homem do templo por trás de um microfone e um jogo de luz?

– O que você sente?

– Eu sinto e creio em muita coisa. Você diz que preciso acreditar nos livros ou acreditar nos meus sentimentos. Ora, se for assim, sentirei que tenho problemas cardíacos quando são apenas gases. Se tem uma coisa que sei sobre minha mente é que ela mente. – ele se arrependeu um pouco da piada, mas precisava ir até o fim, necessitava de uma resposta.

– Se você não crê, nada posso fazer.

– Bom, então me desculpe, seria mais satisfatório se me disseste que a falta é a condição humana, que não tem resposta, sei lá! Mas se fizer isso não haverá turismo, não é? Não haverá templo!

– Não é sobre o templo. Ouça, jovem: alguns não dão conta de lidar com a falta, eu ofereço aquilo que a preenche.

– Não acho que preenchas coisa alguma pois, se dou o que queres, me faltará o desejo. A única coisa que acontecerá será uma grande culpa toda vez que o desejo vier e eu tentar ignorá-lo. Sempre que ele surgir – porque vai – apenas me sentirei mal por isso.

Eros estava profundamente decepcionado com o encontro. Aquilo que o grande E oferecia era demasiadamente humano. Não se encaixava no profundo buraco de seu vazio. “Será que eu sou diferente daqueles que se satisfazem com a verdade dos livros do templo? Ou será que, envergonhados, fingem que sim? Será que alguém oferece realmente todo o seu desejo? Se eu mentir, há punição?”. Confuso, ele resolve então encerrar o encontro com uma última e irônica pergunta:

– Já que aparentemente gostas mais de livros do que eu, posso escrever um sobre você?

– Pode!, respondeu a voz. – Resta saber se alguém irá ler.

Ao sair, o rapaz pôs-se a chorar. Andando pelos corredores rochosos dos jardins da cidade percebeu que muitos peregrinos celebravam felizes mostrando grande satisfação com seus respectivos encontros. Isso fez com que ele se sentisse ainda mais triste e vazio. Enxugando seu rosto, ouviu no cantarolar de um pássaro falante, uma intervenção:

– Por que as lágrimas?

O trabalho de limpeza das Bibliotecas de Alhures era tradicionalmente feito com a ajuda de pássaros sagrados, os quais foram providos da capacidade da linguagem humana. Muito se falava sobre esses pequenos seres mágicos do Vale de Alhures – suas plumagens mudavam de cor conforme as pessoas os enxergavam.

Ainda desolado, o jovem responde: “Não encontrei as respostas que procurava, estou pior agora do que quando entrei...”

– Estranho... Eu faço a limpeza do templo há muitos anos, já ouvi muitas conversas. Acho que você, entre os que passaram por lá, foi o que mais chegou perto de alguma resposta em todo esse tempo.

– Você estava por lá? O que quer dizer? – disse lançando sobre aquele pássaro um olhar de curiosidade.

– A falta! Você veio preencher uma falta, e depois disse, pelo que entendi, que não havia como preencher algo dando outra parte de si em troca, correto?

– Correto, foi o que eu disse sobre desejar. Me pareceu que ele queria que todas as pessoas do mundo desejassem igual. E isso, para mim, não faz sentido.

– Me corrija se estiver errado, rapaz, porém, pelo que entendi, a reposta não é preencher o vazio nem eliminar o desejo.

– E o que eu faço então: aprendo a lidar com a falta e o desejo?

– Tu és quem deves me dizer.

Eros pensou sobre tudo o que tinha conversado com o grande E. E, num momento de epifania, concluiu:

“Acho que durante toda a minha vida tenho estado atrás de algo que não existe. Eu cheguei com uma demanda, pedindo a verdade. Esperei que ele me dissesse tudo, como um sábio faz. Afinal, tanta gente o cultua por aí. Achei que dali viria algo completo. Mas não, acho que eu queria mesmo era dar ordem ao caos, queria um passo-a-passo. Sendo sincero, eu acho que até aceitaria, mas o preço era muito alto, me fez entrar em conflito, sabe?

– Meu filho, eu trabalho a vida inteira tentando dar ordem às coisas, sou um pássaro-faxineiro da montanha. Não importa o quanto eu limpe, tudo sempre volta a se sujar de novo. Dar ordem ao caos é uma tarefa impossível! Mesmo que eu deixe os livros todos empilhadinhos, algum sempre cai... Mas faço disso a minha vida.

– Claro! Me responda uma coisa, senhor pássaro: O que tira um livro do lugar?

– Ah, às vezes alguém que quer ler o tira do lugar.

– Então é o desejo... Ele tira as coisas do lugar, mas sem ele, ninguém leria nada, não é? Sem a vontade dos homens, sua biblioteca ficaria intacta porém morta.

– É uma bela metáfora, meu jovem!

– Então é isso! Primeiro eu preciso entender que sou um ser bagunçado – que dá para me arrumar, mas que não dá para me manter organizado enquanto houver desejo. Que tudo isso é quem sou: uma grande, porém limitada biblioteca de coisas confusas que tenta dar conta de todo o saber do mundo, mas que fica triste quando um livro cai.

Riu.

– Não há biblioteca que contenha todo o saber do mundo.

– E não há livro escrito sem desejo!

– E sobre o vazio: é preciso ter estantes vazias para pôr os novos livros que chegam.

– Senhor pássaro! Eu aprendi mais com você nesses jardins do que em todos os anos da minha vida. Ou dos que persegui o grande E. Se eu tivesse todo o ouro do mundo, lhe dava por esse momento!

– Eu não te dei nada, você que concluiu. Só precisou que eu estivesse aqui para que você não ficasse falando sozinho por aí feito um bocó. Acho que percebi isso e voei até aqui para que escutasse sua voz interior.

O jovem riu novamente. Fez uma engraçada posição de reverência e saiu apressado em direção aos portões da cidade. Deu à ave algumas sementes que tinha; disse que voltaria para conversar mas que agora precisava partir com urgência para descobrir mais sobre a natureza desses seus desejos. O faxineiro também sorriu – entretanto um sorriso diferente, como se aquele não fosse nem o primeiro nem o último jovem que cruzava seu caminho.


ilustrações: Moebius

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